Tarsila do Amaral: a artista que reinventou a imagem do Brasil

Consagrada como uma das pintoras brasileiras mais famosas no mundo, Tarsila inaugurou uma nova identidade cultural e artística nacionais moderna por meio de telas com paisagens, personagens e temas nacionais com cores vibrantes e formas simples
15/09/2026 14:04 | Cultura | Daiana Rodrigues ? Fotos: Reprodução Pinacoteca, Acervo do Palácio do Governo, MAC e Wikipedia

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Operários 1933 (Acervo do Palácio do Governo SP)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367396.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Tarsila do Amaral 1925 (Wikipedia Commons)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367384.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Abaporu 1928 (Infoescola)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367388.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> A Caipirinha 1923 (Flickr)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367385.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Carnaval em Madureira 1924 (Pinacoteca)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367386.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> A Negra 1923 (MAC SP)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367390.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Antropofagia 1929 (Pinacoteca)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367389.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Autorretrato 1924_Acervo do Palácio do Governo SP<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367403.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> São Paulo 1924 (Pinacoteca)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367383.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> A Cuca 1924_Flickr<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367387.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Religião Brasileira 1927_Acervo do Palácio do Gov.<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367391.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Retrato de Mário de Andrade 1922_Acervo do Palácio<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367392.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Manifesto Antropófago_Flickr<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367393.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

Ícone do Modernismo brasileiro, Tarsila do Amaral (1886-1973) completaria 140 anos de idade no dia 1° de setembro. A ?pintora do Brasil?, como queria ser considerada, transformou o modo como o país era representado na arte, imprimindo em suas obras uma expressão vanguardista marcada por cores vivas, formas simples, paisagens rurais e urbanas e personagens do povo, da flora e da fauna brasileira.

Foi durante uma viagem para o interior de Minas Gerais, que Tarsila se inspirou para compor o estilo inconfundível de suas telas que a tornou famosa no Brasil e no mundo. Lá, ela descobriu o azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante.

Certa vez, a pintora contou que haviam lhe ensinado que essas cores eram feias e caipiras, mas foram justamente esses tons vibrantes que se tornaram marca de suas telas.

Vida e trajetória

Nascida em 1º de setembro de 1886, em Capivari, no interior paulista, Tarsila veio de uma rica família de cafeicultores. Sua infância foi retratada na pintura a óleo A Caipirinha (1923), que mostra Tarsila ainda menina brincando com uma boneca feita de mato na fazenda onde morou.

No início do século XX, durante a adolescência, ela começou a estudar desenho e pintura em Barcelona, na Espanha. Aos 18 anos de idade, a artista lançou sua primeira pintura, Sagrado Coração de Jesus (1904).

Ainda jovem, Tarsila estudou na capital paulista onde vivenciou a efervescência cultural de um período marcado pelo início da industrialização e urbanização. Esse processo de mudanças construiu uma linguagem artística genuinamente brasileira, que, mais tarde, tornou-se um dos traços mais emblemáticos em suas obras.

Em Paris, Tarsila entrou em contato com vanguardas que revolucionaram a arte ocidental na época. Mas foi só em São Paulo, quando voltou para o Brasil, que a pintora realmente entrou em contato com a arte moderna.

A artista incorporou influências vanguardistas, como o Cubismo e o Surrealismo, em suas telas como forma de reinterpretar a realidade brasileira. Esse estilo original moldou a poética de suas obras.

Curiosamente, Tarsila do Amaral não participou da Semana de Arte Moderna de 1922 - marco do Modernismo brasileiro. Realizada em fevereiro daquele ano, no Theatro Municipal de São Paulo, o movimento propôs uma ruptura com os padrões artísticos tradicionais e defendeu a construção de uma arte genuinamente nacional, livre e original.

Embora estivesse em Paris na época, Tarsila soube do projeto modernista por meio de cartas enviadas pela amiga e artista Anita Malfatti. De volta ao Brasil, Anita apresentou Tarsila aos escritores e artistas Mário de Andrade, Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade, que mais tarde se tornaria seu segundo marido. O quinteto foi fundamental na construção de um novo paradigma artístico. A partir daquele momento, começou a virada na carreira de Tarsila.

Em 1951, Tarsila recebeu o Prêmio de Pintura Nacional na Primeira Bienal de São Paulo. A artista foi reconhecida como a pintora mais representativa da primeira fase do Modernismo brasileiro, o ?Pau-Brasil?.

A artista morreu em 1973, mas seu vínculo com o estado permanece vivo por meio de seu legado. Suas obras fazem parte de importantes acervos paulistas, como Pinacoteca, Museu de Arte de São Paulo (Masp), Museu de Arte Contemporânea (MAC) e Acervo Artístico-Cultural do Palácio do Governo.

Da paisagem à questão social

A primeira fase modernista, o Pau-Brasil, foi marcada por temas, paisagens e elementos da cultura brasileira. Dessa época, destacam-se obras, como A Negra (1923), Carnaval em Madureira (1924), Morro da Favela (1924), O Mamoeiro (1925) e O Pescador (1925).

Considerada precursora desta fase, A Negra foi retratada com traços exagerados desenhados por formas geométricas cubistas aprendidas em Paris. Para pintar a tela, a artista se inspirou nas suas lembranças de infância nas fazendas de café da família.

A figura representada na tela estava associada com as negras, que geralmente eram filhas de escravos, cuidavam das crianças e, algumas vezes, serviam até de amas de leite. Com esta tela, Tarsila entrou para a história da arte moderna brasileira.

Outro destaque importante da fase Pau-Brasil é a obra São Paulo (1924), que retrata a modernização e o crescimento da capital paulista no início do século XX.

A pintura apresenta uma cidade marcada por edifícios, fábricas, trilhos e elementos da paisagem urbana, representados com formas geométricas e cores vibrantes. A artista utiliza uma linguagem moderna para destacar as transformações provocadas pela industrialização e pela expansão urbana.

Em vez de retratar São Paulo de maneira realista, a artista reorganiza seus elementos de forma estilizada, criando uma composição dinâmica e característica de sua produção.

Considerado uma obra-prima brasileira, o Abaporu (1928), termo que significa ?homem que come gente?, é referência da segunda fase modernista, Antropofagia, influenciada pelo Surrealismo. A tela está exposta no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), na Argentina.

O personagem de Abaporu possui pés e mãos enormes e uma cabeça pequena, diante de um cenário árido, com um cacto e o sol. A artista contou que a figura era fruto de imagens do seu inconsciente, e tinha a ver com as histórias que as negras contavam para ela em sua infância.

A obra foi presente de aniversário de Tarsila ao então marido, Oswald de Andrade. Impressionado com a pintura, o escritor produziu o Manifesto Antropófago (1928), que defendia que o Brasil deveria ?devorar? as influências estrangeiras e transformá-las em uma identidade artística própria.

O Abaporu

Outro marco da arte brasileira e do movimento antropofágico é a icônica obra Antropofagia (1929), que nasceu da fusão de dois trabalhos anteriores da pintora: O Abaporu (1928) e A Negra (1923). Seu significado representa a busca por uma cultura nacional independente e criativa.

A pintura apresenta uma figura humana de proporções exageradas, sentada diante de um cacto, em uma composição marcada por cores fortes e formas simplificadas. Tarsila buscou utilizar elementos da cultura nacional e referências às paisagens tropicais para construir uma identidade artística própria, rompendo com padrões tradicionais da arte europeia.

O impacto histórico de Antropofagia redefiniu a literatura, as artes plásticas e, décadas mais tarde, movimentos como a Tropicália. Atualmente, a obra pertence ao acervo da Pinacoteca de São Paulo.

Além da estética de paisagens, Tarsila também representou as transformações sociais e econômicas do país em suas obras, particularmente, de São Paulo, que na década de 1930 se consolidava como centro industrial e econômico do país.

Naquela época, surgiu a chamada fase Social de produção de Tarsila, que passou a refletir temas da causa operária.

Pioneira dessa fase, Operários (1933) retrata a diversidade étnica da classe operária no início da industrialização paulista.

A composição da tela, em diagonal, apresenta diversos rostos da massa de trabalhadores dispostos em forma de pirâmide com chaminés de fábricas no fundo. O quadro reflete o crescimento industrial e econômico, a diversidade populacional de São Paulo e a chegada de migrantes de várias partes do Brasil a São Paulo. A pintura pertence ao Acervo do Governo do Estado de São Paulo.

Legado 

A importância de Tarsila para a arte brasileira está justamente na capacidade de transformar diferentes referências em uma linguagem que passou a ser identificada com o próprio Brasil.

Sua obra ajudou a romper com a ideia de que a arte brasileira deveria seguir padrões europeus e abriu espaço para que cores, paisagens, personagens e temas nacionais fossem tratados como matéria-prima para uma arte moderna e sofisticada.

Quase um século depois, suas pinturas continuam presentes no imaginário brasileiro. Abaporu, A Negra, Operários e outras obras da artista ultrapassaram o espaço dos museus e passaram a fazer parte da cultura visual do país.

A história de Tarsila é, portanto, também uma história de São Paulo e do modernismo brasileiro. De Capivari para o mundo, a artista participou da construção de uma nova maneira de olhar para o Brasil - um olhar que incorporava as influências do mundo, mas procurava transformá-las em uma identidade própria.

Tarsila do Amaral não apenas retratou o Brasil moderno nas artes, como também reformulou a identidade nacional através de uma estética marcada por cores vivas e formas simples.

Saiba mais sobre Tarsila em: https://www.tarsiladoamaral.com.br/

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