Inaugurado no aniversário da Capital Paulista, Minhocão faz 55 anos como símbolo da metrópole
25/01/2026 08:00 | Parabéns, São Paulo! | Fernanda Franco
Um viaduto que, para muitas pessoas, é a cara de São Paulo: grande, barulhento, cinza, muitas vezes travado, mas, rico em diversidade e cultura. O Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão, foi inaugurado em 25 de janeiro de 1971, no aniversário da cidade de São Paulo, e já nasceu controverso e polêmico.
A via de 3,6 quilômetros de extensão segue no centro do debate urbano paulistano 55 anos após sua inauguração. "É uma massa de concreto tão grande que, talvez, demolir possa causar mais problemas do que deixar como está", afirma o arquiteto e urbanista Chico Barros, também pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Para o pesquisador, o impacto do Minhocão é "estruturante" e difícil de reverter, por ser resultado de um sistema de transporte baseado na centralidade do automóvel e imposto de forma autoritária. "Se hoje aplicássemos os critérios de estudo de impacto ambiental e participação popular previstos no Estatuto da Cidade, o Minhocão jamais teria sido aprovado", avalia.
Histórico
A proposta inicial foi projetada em 1968, pelo arquiteto Luiz Carlos Gomes Cardim Sangirdadi, para ligar a região central à zona oeste e reduzir congestionamentos. No entanto, o projeto foi rejeitado pelo então prefeito José Vicente Faria Lima por ser uma obra que causaria impacto negativo na paisagem, sendo necessário estudar outras soluções viárias.
Em 1969, Paulo Maluf foi nomeado prefeito da cidade e decidiu retomar o projeto em ritmo acelerado. A obra foi concluída em tempo recorde, cerca de 11 meses, e custou 37 milhões de cruzeiros novos, valor que corresponde a aproximadamente 5 bilhões de reais na cotação atual.
Desde então, busca-se alternativas para enfrentar o desastre urbanístico, ambiental e paisagístico causado pela construção. A partir de 1976, o tráfego de veículos no Elevado passou a ser reduzido gradualmente até chegar no modelo atual: de segunda a sexta-feira, das 20h às 22h, e nos sábados, domingos e feriados, das 7h às 22h, o Minhocão funciona como área de lazer para pedestres e ciclistas e proibido para carros.

Foi a partir dessa necessidade de ressignificar o papel do Minhocão na cidade que, em 2014, o Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo, Lei nº 16.050/2014, estabeleceu diretrizes para desativar o Elevado para carros até 2029 e transformá-lo em um parque linear - inspirado no Highline Park, em Nova York. A ideia é tirar o foco do transporte individual e direcionar o Minhocão para o uso social, humanizando o centro. No PDE de 2024, a proposta se manteve.
Críticas
Desde sua inauguração, o Elevado dividiu opiniões. De um lado, uma construção sem estudos de impacto urbano, priorizando o fluxo de automóveis. De outro, queda da qualidade de vida dos moradores de prédios próximos, que se sentiram invadidos pela proximidade e pelo barulho.
Os impactos são negativos e sentidos diariamente por quem vive no entorno, segundo parte dos moradores. Marcelo Vasquez, analista de TI, que mora há mais de 55 anos em frente ao Elevado, relata que a poluição sonora, atmosférica e visual marcou toda a sua vida. "Antes, o Elevado funcionava 24 horas por dia. Era impossível descansar", relembra.
Para ele, o Minhocão funciona como uma "câmara de reverberação". "A fuligem se impregna em tudo. O pior é aspirar continuamente gases tóxicos. Isso afeta diretamente a saúde", afirma.
Marcelo também critica a proposta de transformar o espaço em parque. "Quem faz estes tipos de propostas não deve morar em um local cuja janela é colada ao Elevado". O morador representa a parcela de quem defende a demolição total. Para ele, a única forma de devolver dignidade ao centro é derrubar a estrutura e revitalizar o canteiro central da avenida que corre por baixo.
Chico Barros também destaca os efeitos sociais do Minhocão, sobretudo para populações mais vulneráveis. "O espaço embaixo do Elevado se tornou abrigo para pessoas em situação de rua porque é um lugar rejeitado pela cidade. Isso revela uma falha estrutural das políticas públicas", afirma. Segundo ele, intervenções recentes de caráter estético, como jardins de chuva, não resolvem o problema. "Não se resolve exclusão social com floreiras", critica.
Outros moradores destacam que o fechamento parcial da via nos fins de semana reduziu o tráfego e melhorou a qualidade de vida, mas não eliminou os conflitos. Eventos com som alto e aglomerações também são alvo de críticas, especialmente por ocorrerem nos únicos dias de descanso da semana.
Arte urbana
Na outra ponta do debate, iniciativas culturais buscam ressignificar o Minhocão como espaço de expressão artística e memória coletiva. Ao longo dos anos, o Elevado se tornou um corredor de arte urbana, um colorido em meio ao concreto, que possibilita aos paulistanos ver a construção com outros olhos.

O sociólogo e ativista cultural Kléber Pagu, fundador do Museu de Arte a Céu Aberto (Museu CEU), relembra que as intervenções artísticas no Elevado começaram nos anos 1970. "Em 1974, o artista Flávio Motta realizou uma intervenção com o objetivo de 'humanizar o gigante de concreto'", explica.
Desde então, o espaço passou a receber grafites, murais e intervenções, que, segundo Pagu, também funcionam como registro histórico da cidade. "A arte urbana registra não só a obra, mas o contexto social. É memória viva", afirma. Hoje, o Minhocão é a maior galeria de arte a céu aberto do mundo, construída de forma gradual e coletiva ao longo de mais de cinco décadas.
Ainda assim, mesmo os defensores da ocupação cultural reconhecem que a arte não substitui políticas públicas estruturais. "A transformação do Minhocão não pode ser apenas estética. Precisa ser um projeto de Estado, com debate público e integração com políticas de mobilidade, habitação e assistência social", defende Pagu.
Participação popular
Os moradores afirmam que há, historicamente, não são consultados sobre o destino do Elevado. Para Chico Barros, a participação social é central para qualquer solução futura. "A minha fala, como arquiteto, não vale mais do que a dos outros moradores. A cidade precisa ser construída coletivamente", afirma.
Nesse sentido, Pagu ressalta que a falta de reconhecimento do PL 379/2020, em tramitação na Câmara Municipal, e que prevê uma legislação específica para arte urbana na Capital Paulista, faz com que os museus de territórios a céu aberto, como o Minhocão, Beco do Batman, Favela Galeria entre outros, fiquem de fora da atenção das Políticas Públicas.
Apesar do futuro do Minhocão estar no debate da esfera municipal, Barros destaca que a Alesp pode contribuir fortalecendo a cultura de consultas públicas, audiências e processos participativos. "Isso muda o senso comum e qualifica as decisões", avalia.
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