Fevereiro Laranja: São Paulo lidera rede de transplantes de medula e cadastro de doadores

Estado conta com 53 serviços habilitados para a realização desses procedimentos, sendo 23 pelo SUS; São Paulo responde por 1,5 milhão de inscritos, 25% do total do Redome (Cadastro Nacional de Doadores de Medula)
24/02/2026 08:00 | Saúde | Tom Oliveira - Foto: Arquivo Pessoal - Infográfico: Mariana Melo

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Fevereiro é mês de conscientização sobre leucemia<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg360859.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

O ano era 2013. Luiz Henrique de Oliveira, 29 anos, viajou à Bahia para passar férias, mas a viagem foi interrompida por uma febre alta e persistente. Após procurar atendimento médico e receber um alerta nos exames, ele retornou a São Paulo. Veio então o diagnóstico: leucemia linfoide aguda.

A internação foi imediata, e o que seria um mês de descanso virou o início de uma rotina intensa de tratamento. Entre quimioterapia e radioterapia, foram dois anos de enfrentamento.

"Passei por seis ciclos de quimioterapia e 12 sessões de radioterapia para prevenção no cérebro. Tive várias internações, complicações, desmaios, fraquezas, vômitos, infecções e reações fortes, porque as medicações são muito agressivas. Uma delas afetou bastante meu pâncreas, que diminuiu de tamanho e ficou mais frágil", relata.

Em seguida, Luiz foi submetido a um transplante de medula óssea, etapa decisiva no tratamento. "Tudo ocorreu como os médicos esperavam. A medula 'pegou' e reagiu muito bem no meu corpo. Eles ficaram muito felizes e fizeram uma comemoração bonita, com bolo e felicitações de médicos e enfermeiros", conta.

Em 2019, Luiz voltou à Bahia para concluir a viagem interrompida anos antes - desta vez, recuperado.

Diagnóstico e a importância do Redome

A história de Luiz mostra como a leucemia pode mudar uma vida de uma hora para outra. A doença é o décimo tipo de câncer mais frequente no Brasil, desconsiderando os tumores de pele, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). O envelhecimento da população é apontado como um dos fatores relacionados ao aumento de casos.

É nesse contexto que ganha relevância o Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea), que reúne 6 milhões de pessoas cadastradas, atrás apenas de Alemanha e Estados Unidos. São Paulo responde por 1,5 milhão de inscritos, 25% do total.

Diariamente, o sistema cruza dados de pacientes com registros nacionais e internacionais. Quando há suspeita de compatibilidade, o voluntário é chamado para exames complementares. Confirmada a compatibilidade e após avaliação médica, cabe ao doador decidir se seguirá com o procedimento.

O tema tem ainda mais visibilidade neste mês, durante a campanha Fevereiro Laranja, voltada à conscientização sobre a leucemia.

São Paulo na liderança

O estado de São Paulo concentra o maior número de transplantes de medula óssea do país. Em 2024, foram realizados 1.664 procedimentos em território paulista, sendo 70% pela rede pública. O volume representa 43% de todos os transplantes feitos no Brasil, que somaram 3.821 no período, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).

São Paulo conta com 53 serviços habilitados para a realização desses procedimentos, sendo 23 pelo SUS, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde.

Os números refletem a atuação integrada de serviços públicos de saúde e organizações do terceiro setor, que apoiam desde o diagnóstico e a busca por compatibilidade até o acolhimento no pós-transplante.

Entidades de apoio

Além da rede hospitalar, o estado também conta com forte atuação de entidades voluntárias. A Ameo (Associação da Medula Óssea) mantém duas casas de apoio na Capital.

Uma delas funciona como Casa de Passagem e atende diariamente cerca de 70 famílias da Região Metropolitana, com oferta de produtos de higiene pessoal, cestas básicas, medicamentos e vale-transporte.

A segunda unidade possui 10 quartos e estrutura para receber pacientes e acompanhantes, com capacidade para até 20 pessoas simultaneamente. Em média, 30 famílias são acolhidas. A proposta é permitir que pacientes estabilizados deixem a internação antes da alta definitiva, liberando leitos e contribuindo para dar mais fluidez à fila de transplantes.

"Muitos pacientes vêm de outros estados para cá. Muitas vezes o transplante de medula é a última alternativa, então a família precisa de ajuda com transporte, alimentação e medicamentos", afirma o gestor da entidade, Wagner Fernandes.

Luiz Oliveira também destaca o papel da Ameo no período de tratamento: "A Ameo foi um refúgio que eu encontrei - emocional e afetivo - de muito cuidado e amparo. Boa parte do que eu passei devo à Ameo, que me acolheu com afeto, empatia, fé e alegria. Ouvir relatos de outros pacientes me deu força e esperança. A entidade também ajudou com cestas básicas, condução, transporte, comida e apoio social. Hoje, posso dizer que a Ameo faz parte de mim e da minha mãe, Luzia, que passou a atuar na entidade".

Alesp em ação

Na Assembleia Legislativa, a campanha Fevereiro Laranja foi oficializada pela Lei 17.207/2019, proposta pelo deputado Thiago Auricchio (PL). A norma estabelece o mês de fevereiro como período para ampliar o debate e incentivar a doação de medula óssea como estratégia de tratamento.

Nos últimos anos, o Parlamento paulista também aprovou outras medidas voltadas a informar, incentivar a doação, ampliar a captação e facilitar a localização de doadores compatíveis, além de orientar sobre o processo de transplante.

Entre as iniciativas estão o Programa Permanente do Transplante de Medula Óssea (Promedula), instituído pela Lei Estadual 15.601/2014; o Sistema Paulista de Cadastro e Doação de Medula Óssea, criado pela Lei Estadual 16.790/2018; e a Semana de Mobilização Estadual para Doação de Medula Óssea, realizada anualmente de 14 a 21 de dezembro, conforme a Lei Estadual 16.386/2017.

alesp