Instituto Butantan: da resposta a pandemias à vanguarda mundial de soros e vacinas

O maior centro de produção de soros e vacinas do país completa 125 anos, consolidado como um dos pilares da saúde pública brasileira e referência mundial
23/02/2026 12:32 | 125 anos salvando vidas | Fernanda Franco - Fotos: Na legenda

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Soro antiofídico - Fonte: Instituto Butantan<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg360861.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Edifício Vital Brazil - Foto: Rafael Escudero<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg360879.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

A serviço da vida há 125 anos, o Instituto Butantan respira entusiasmo. Depois do protagonismo no combate à pandemia da Covid-19 no Brasil, a instituição alcançou recentemente uma conquista histórica: o início da vacinação contra a dengue. A Butantan-DV foi desenvolvida para proteger contra os quatro sorotipos da dengue e é a primeira do mundo em dose única.

A distribuição da tão aguardada vacina contra a dengue, vem em um momento marcante: o aniversário de 125 anos da instituição neste mês de fevereiro, dia 23. O Instituto Butantan é, atualmente, o maior produtor de vacinas e soros da América Latina. O que hoje é um complexo biotecnológico de renome mundial, começou de forma modesta em 1901, ocupando a casa de uma antiga fazenda e uma cocheira.

Do Soro à Vacina
A história do Instituto Butantan, órgão ligado à Secretaria de Estado da Saúde (SES) de São Paulo, está intrinsecamente ligada à necessidade de resposta rápida a crises sanitárias. Fundado inicialmente como Instituto Serumtherápico, o Instituto nasceu para combater o surto de peste bubônica que começou no porto de Santos.

Para produzir o soro, era necessário isolar a bactéria e imunizar cavalos, técnica que deu início à trajetória da instituição. Foto: Instituto Butantan.

O médico Vital Brazil, fundador e primeiro diretor do Instituto Butantan, produziu soro antipestoso e depois se especializou em soros contra picadas de cobras (soro antiofídico), comuns no interior paulista. O desenvolvimento do soro antipestoso foi o marco fundamental que colocou São Paulo no cenário da medicina moderna.

Produção de soros antiofídicos no início do século XX. Foto: Instituto Butantan.

A evolução para as vacinas ocorreu gradualmente e se tornou eixo estratégico ao longo do século XX. Após consolidar a produção de soros antipeçonhentos e antidiftéricos, o Butantan passou a desenvolver imunizantes.

Na década de 1950, o instituto iniciou a produção da vacina DPT (difteria, tétano e coqueluche), sendo as vacinas mais antigas produzidas pelo Instituto. "A introdução da vacina tríplice bacteriana (DPT) foi um divisor de águas, pois reduziu enormemente a mortalidade infantil", contextualiza a pesquisadora Luciana Cezar de Cerqueira Leite, do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan. "Nesses 125 anos de história, soros e vacinas produzidos no Butantan foram decisivos para o aumento da expectativa de vida no Brasil e para o combate de doenças que hoje estão praticamente erradicadas", afirma.

Do artesanal à escala industrial
Luciana explica que nas primeiras décadas, a produção de soros e vacinas era limitada e majoritariamente artesanal. Mesmo quando as vacinas já eram destinadas ao governo federal, a capacidade de fabricação era restrita. A consolidação de uma política pública estruturada de imunização foi fundamental para ampliar escala e impacto.

A criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1973, e o fortalecimento dos mecanismos de controle de qualidade nas décadas seguintes, com a atuação do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), forçou novos padrões tecnológicos e de controle de qualidade em todas as fábricas. "Esse período marcou o salto do Butantan em direção à autossuficiência em imunobiológicos", afirma a pesquisadora. Atualmente, o Butantan é reponsável por fornecer 65% de todas as vacinas distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Luciana, o grande investimento estadual na saúde, entre as décadas de 1980 e 1990, permitiu modernizar processos, fortalecer o controle de qualidade e ampliar a capacidade produtiva. Foi nesse contexto que surgiu o Centro de Biotecnologia e ganharam impulso a projetos estratégicos, como o desenvolvimento da vacina contra a dengue. "A produção de vacinas leva tempo, é preciso ter competência em todo o processo", ressalta a pesquisadora.

Covid-19 versus dengue
Recentemente, o Butantan esteve sob os holofotes globais devido às vacinas contra a Covid-19 e a dengue. Embora ambas representem sucessos, Luciana comenta que os processos foram distintos e desafiadores. "A vacina da Covid foi uma transferência de tecnologia, a gente já tinha expertise. Já a dengue é um desenvolvimento de anos", explicou.

A vacina contra a dengue começou a ser desenvolvida no Instituto Butantan em 2010 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a partir de uma formulação criada por pesquisadores vinculados ao National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos.

Enquanto a CoronaVac utilizou a plataforma de vírus inativado - um processo mais rápido de isolar, crescer e matar o vírus -, a vacina da dengue exigiu uma inovação própria. O instituto conduziu ensaios clínicos de fases 1, 2 e 3, envolvendo múltiplos centros e milhares de voluntários. Um dos desafios foi demonstrar eficácia diante da oscilação na incidência da doença. "Para mostrar eficácia, é preciso que haja casos sendo detectados. Quando deu zika vírus, a dengue desapareceu, então não dava para fazer ensaio clínico", explicou a pesquisadora.

Ciência para o povo
Para o instituto, a ciência só é completa quando compreendida pela sociedade. O novo Museu da Vacina, inaugurado em 2023, é a iniciativa cultural mais recente, junto com o Museu Biológico e o Museu de Microbiologia, que busca preservar a memória do Instituto.

"As pessoas começam a valorizar a pesquisa porque percebem que não haveria vacina sem ela. O legado do Instituto não é feito apenas de prédios e fórmulas, mas de pessoas treinadas para responder aos maiores desafios da saúde pública", afirma Luciana Leite.

Museu da Vacina localizado no Parque da Vacina do Instituto Butantan. Foto: Rafael Escudero.

Autossuficiência
Hoje, o Butantan atua em todas as etapas possíveis da cadeia produtiva: do cultivo celular à formulação final, controle de qualidade e envase. Ainda assim, a autossuficiência é relativa. "Ninguém no mundo é sustentável de tecnologia, nem de vacina", pondera Luciana. Insumos e reagentes seguem majoritariamente importados, o que ficou evidente na pandemia, quando faltaram desde reagentes até ponteiras de laboratório.

A meta institucional é reduzir vulnerabilidades. "A autossuficiência é um alvo que a gente sempre vai ter que aumentar. A gente nunca vai conseguir ser 100%, mas a ideia é que, numa pandemia, faltem menos insumos", resume.

A pandemia também impulsionou a incorporação de novas plataformas tecnológicas, especialmente as vacinas de RNA. Embora o Butantan tenha atuado majoritariamente com vírus inativado na Covid-19, passou a investir em acordos para dominar a tecnologia de RNA, com vistas à preparação para futuras emergências sanitárias.

Apesar dos avanços, a preparação para novas crises sanitárias permanece um desafio. Luciana, que integra o comitê científico da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), que a estratégia atual envolve monitoramento epidemiológico e fortalecimento de plataformas tecnológicas adaptáveis, como RNA, vetores virais e proteínas recombinantes, que permitam respostas mais rápidas. A experiência da Covid acelerou esse movimento e aproximou agências regulatórias, produtores e centros de pesquisa.

alesp