'Não se entregar apenas à dor': atividade física é pilar fundamental no tratamento da Fibromialgia

Doença crônica tem relação com aspectos genéticos, emocionais e com alterações químicas no sistema nervoso; especialista indica que combinação equilibrada entre aeróbico, musculação e alongamento é opção saudável
26/02/2026 18:09 | Fevereiro Roxo | Gabriel Eid - Fotos: Rodrigo Costa e Acervo Pessoal Deise Cheganças e Giovanna Marques

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Atividade física de forma equilibrada<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg361108.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Deise Cheganças faz pilates e treino funcional<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg361111.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Giovanna Marques: falta tempo para os exercícios<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg361112.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Deise: cuidado com a saúde mental<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-02-2026/fg361113.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

"Todos nós temos que sentir dor. Dor é uma função importante para viver. Mas a gente tem que sentir dor quando tem uma lesão, em uma situação em que a dor é útil, para corrigirmos o que está errado." Com esta explicação, o médico reumatologista e presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, José Martinez, define a Fibromialgia, doença crônica e sem cura marcada pela dor amplificada em diferentes regiões do corpo, mesmo sem nenhuma lesão física.

O mês de Fevereiro Roxo é voltado para a conscientização a respeito da doença - junto com Lúpus e Alzheimer - e é uma oportunidade de trazer informação e ampliar políticas públicas para as pessoas que convivem com a condição. O médico José Martinez indica que as causas das doenças têm muita relação com questões emocionais somatizadas ao longo do tempo e aspectos genéticos, que causam uma alteração na percepção dos estímulos de dor.

O médico Flávio Petean, também especializado em reumatologia e professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, aponta que as alterações químicas no sistema nervoso são decisivas. "Todo paciente que tem depressão, ansiedade, enxaqueca e síndrome do intestino irritável tem potencial para desenvolver Fibromialgia, uma vez que as alterações químicas que nós estamos conversando estão presentes em todas essas situações", explica.

Exercício físico

Deise Cheganças é pedagoga e tem 62 anos. Durante a pandemia, começou a sentir dores fortes no corpo, sem explicação aparente, e foi em um médico ortopedista para fazer uma avaliação. "Ele me disse que quando você tem dor em várias partes do corpo isso não é mais ortopédico. É só para uma dor específica."

Por isso, o especialista indicou que ela fosse para uma reumatologista e começasse a fazer uma investigação ampla, que terminou com o diagnóstico de Fibromialgia e Artrite Reumatoide. O tratamento começou com antidepressivos específicos, que regulam agentes químicos que inibem ou estimulam a dor, e analgésicos para os momentos de crise.

Além disso, ela ressalta que o exercício físico se tornou parte central da sua vida e do tratamento. "De todos os estudos que nós acompanhamos, o exercício físico é o melhor tratamento. O exercício físico regular, de pequena intensidade e frequente, em vez do de grande intensidade e raro, é muito melhor do que qualquer remédio", indica o médico José Martinez.

O médico explica que a combinação entre alongamento, musculação e, especialmente, o exercício aeróbico, é a melhor opção para as pessoas com Fibromialgia. Deise Cheganças explica que, apesar das dificuldades e desconfortos que podem vir no início da prática ou em momentos de crise, é muito nítida a mudança que a atividade física produz no seu bem-estar. Ela faz pilates duas vezes por semana e treino funcional três vezes, sempre com o acompanhamento de um personal.

"Eu caí e fraturei a clavícula e fiquei 40 dias imobilizada e sem exercício. Foi a época que mais crise eu tive, eu fiquei muito mais dolorida, muito mais sensível. E quanto menos eu fazia mais dor eu tinha", afirma. Ela também destaca os benefícios emocionais dos exercícios para a sua vida. "Eu me entregaria apenas a dor [Se não fizesse exercícios]. Seria igual falar que a minha vida só se resume em dor, mesmo não sendo", complementa.

Rotina como empecilho

Giovanna Marques é estudante e tem 20 anos. Com 17, começou a ter os sintomas de Fibromialgia e demorou aproximadamente dois anos para ter o diagnóstico da doença. "Demorei até conseguir um encaminhamento para um especialista, acredito que os médicos pensaram que eu era muito nova pra ter algo mais sério", explica.

Depois de um período recebendo receitas de analgésicos e anti-inflamatórios que resolviam os sintomas apenas por um período curto, fez testes negativos para Artrite e Artrose, o que acabou levando ao diagnóstico de Fibromialgia. "O diagnóstico é feito sempre assim, por eliminação de doenças. Não existe um exame para detectar a Fibromialgia e por isso é um processo mais lento. Muitos pacientes apresentam sintomas distintos, então fica muito difícil pra fechar", pontua Giovanna.

Depois do diagnóstico da doença, continua com uma rotina agitada que envolve estudos na faculdade de manhã, trabalho em escritório de tarde e trabalhos de escritora à noite. Por conta disso, têm dificuldades de seguir as atividades físicas que são centrais no tratamento da doença. "Quase não me sobra tempo para fazer, principalmente por causa do tempo que gasto no transporte público diariamente, que chega a tomar umas 4h diárias."

A estudante conta que sua médica reumatologista a orientou que começasse a fazer exercícios o mais rápido possível, porque eles poderiam trazer melhoras até maiores do que os medicamentos dão. "Principalmente em períodos onde os medicamentos não fazem tanto efeito, como no inverno." Diante da falta de tempo, ela busca ao menos se alongar diariamente e se manter em movimento.

Gatilhos e saúde mental

Deise Cheganças conta que a Fibromialgia a ensinou a respeitar o corpo nos seus momentos de crise e, ao mesmo tempo, olhar para a sua saúde mental. "É óbvio que tem crises que é aquela dor insuportável. Eu tenho que respeitar o meu corpo e ficar na cama."

O médico Flávio Petean explica que existem uma série de fatores que causam crises para pacientes de Fibromialgia e que eles precisam ser conversados caso por caso com os profissionais de saúde, para definir as melhores formas de tratamento. "A piora acontece em três situações: o estresse emocional, a mudança climática e no trabalho."

Atividades antes cotidianas para Deise passaram a causar dificuldade, como ir na piscina e tomar sol. "Eu era ratona de piscina, ficava lá '30 anos', mas agora não dá mais. Entrar na água gelada da piscina, não dá. Banho gelado não pode. Banho muito quente, não pode. Tomar friagem, não pode. Precisa levar a blusinha para todos os lugares", explica.

Combinação de estresse, gatilhos emocionais e esforço físico também são problemas para Deise. Ela recorda da vez que precisou levar a sua amiga doente no hospital e precisou empurrar a sua cadeira de rodas. "A tensão de ela não estar bem e de levá-la ao pronto socorro e o esforço físico de empurrar a cadeira de rodas. Eu fiquei dois dias sem sair de casa e me mexer."

Para ajudar a lidar com situações como essa e com as mudanças na vida cotidiana, ela defende que a terapia psicológica é algo fundamental no tratamento de pessoas com a doença. "Seja o vizinho, o filho, o pai, a mãe, ninguém vai te entender como em uma terapia. Não é porque você está pagando, é porque ela é especializada nisso", pontua.

Política Estadual

Está em tramitação na Alesp, o Projeto de lei nº 684 /2025, de autoria do deputado Luiz Claudio Marcolino (PT), que institui a "Política Estadual de Proteção Integral, Atenção Multissetorial e Fomento aos Direitos da Pessoa com Fibromialgia".

Diante da dificuldade enfrentada por pessoas como Giovanna Marques para manter uma rotina de exercícios em meio à rotina atarefada, o deputado Marcolino defende em sua proposta que sejam realizadas medidas de incentivo à inserção e permanência no mercado de trabalho, com possibilidade de adaptação de jornada e funções e acesso a benefícios assistenciais.

Além disso, o Projeto da Política Estadual também prevê o atendimento multiprofissional no Sistema Único de Saúde (SUS) - com prioridade para reumatologia, fisioterapia, psicologia, psiquiatria, assistência social e práticas integrativas - e a realização de programa de capacitação continuada dos profissionais da saúde, da assistência social e da educação.

"A fibromialgia ainda é tratada com desinformação e preconceito. Nosso objetivo é garantir reconhecimento, respeito e políticas públicas concretas para assegurar dignidade e inclusão", afirmou o parlamentar. Em sessão realizada em novembro de 2025, o Projeto avançou na Comissão de Constituição, Justiça e Redação e agora foi distribuído para apreciação da Comissão de Defesa das Pessoas com Deficiência.

alesp