Um voo pelos 90 anos de Congonhas: o aeroporto que ajudou a construir São Paulo
17/04/2026 18:33 | Aviação | Fernanda Franco - Fotos: Acervo Flap International e Wikimedia Commons
Inaugurado em 12 de abril de 1936, o Aeroporto de Congonhas (CGH) completa 90 anos como um dos principais símbolos de conexão, história e desenvolvimento de São Paulo. No coração paulistano, Congonhas é o aeroporto principal e mais antigo da história da aviação comercial brasileira.
Ter um aeroporto na zona sul da capital já era uma ideia antiga. Congonhas foi construído como uma alternativa ao Campo de Marte, localizado na zona norte, que na década de 1920 estava saturado e sofria com alagamentos do rio Tietê.
Seu nome vem em homenagem ao Visconde de Congonhas do Campo, que foi o primeiro presidente da província de São Paulo (1824-1827) após a independência do Brasil. Foi nas terras da sua família que o aeroporto nasceu. De um campo de aviação em uma área rural e afastada da cidade, tornou-se, ao longo de nove décadas, peça chave na consolidação da capital paulista como centro econômico, político e social do país.

A trajetória do aeroporto acompanha a própria expansão urbana de São Paulo. Escolhido quando ainda fazia parte do município de Santo Amaro, Congonhas foi incorporado pela cidade que cresceu ao seu redor - invertendo a lógica comum. "Congonhas não está no meio da cidade. Ele chegou antes. A cidade de São Paulo é que o abraçou", afirma o publicitário e embaixador do aeroporto, Gianfranco Beting.
No primeiro ano de operação, cerca de 5 mil passageiros transitaram pelo terminal. Em 2025, o número chegou a 24,5 milhões. Para Beting, os dados ajudam a dimensionar a importância estratégica do aeroporto. "Congonhas não apenas reflete a pujança da cidade, mas também é motor do seu desenvolvimento", afirma.
Sete fases de uma história
O embaixador do aeroporto separa a história do terminal em sete fases principais que ajudam a compreender sua relevância.
A fase inicial, entre 1936 e 1945, foi marcada pelo "pioneirismo bandeirante", com destaque para a atuação da VASP na aviação nacional, que transformou o local no chamado "campo da VASP".

No pós-guerra, entre 1946 e 1960, o aeroporto viveu seus "anos dourados", impulsionado pela expansão da aviação comercial. Nessa época, o aeroporto era internacional e recebia aviões de maior porte, como o Airbus A300 ou o Boeing 767, além de voos de diversas empresas, como Aerolíneas Argentinas, Pluna, Air France, entre outras.
"Houve uma explosão na demanda e na oferta da aviação brasileira. Com milhares de aviões excedentes da segunda guerra, companhias aéreas foram lançadas num prazo curtíssimo e fez com que o tráfego explodisse", explicou Beting.
Na década de 50, Congonhas chegou a ser o terceiro terminal com maior movimentação de carga e um dos dez aeroportos mais movimentados do mundo, posição que nenhum outro aeroporto brasileiro jamais voltou a ocupar.
Um dos grandes marcos desse período também foi o surgimento da ponte aérea Rio-São Paulo, em julho de 1959, em Congonhas. "A ponte aérea foi uma grande invenção paulistana que hoje é um conceito e referência mundial", destacou Beting. No mesmo ano, teve início os voos a jato, nas asas da Varig.
Os anos seguintes trouxeram crescimento e mudanças. Entre 1961 e 1975, teve a entrada dos aviões turbo-hélices, que trouxeram velocidade, segurança e maior capacidade. "Isso aumentou o fluxo de passageiros e fez com que a economia brasileira, e a paulista, alçassem novos voos", afirmou o embaixador.
No entanto, como na vida, o aeroporto também teve seus momentos baixos. Desafios estruturais fizeram com que o aeroporto entrasse "em modo de sobrevivência" entre 1976 e 1990. Nesse período, Congonhas é fechado para voos na madrugada em função da reclamação da poluição sonora, tendo seus voos noturnos transferidos para o aeroporto de Viracopos.
E partir de 1985, com a inauguração do Aeroporto Internacional de São Paulo em Guarulhos, Congonhas passou por uma reconfiguração operacional, perdendo voos internacionais e parte das rotas domésticas.
Mas ainda assim, manteve sua relevância. Entre 1991 e 2001, voltou a assumir protagonismo diante do crescimento da demanda aérea e das limitações de outros terminais. Entre 2002 a 2022, o aeroporto passou por momentos traumáticos, como o saturamento da capacidade do terminal, fechamento de grandes companhias aéreas (Panamérica, Varig, VASP e Transbrasil), apagão aéreo (atrasos e cancelamentos de voos) e o acidente com o Voo 3054 da Latam, em 17 de julho de 2007. O Airbus A320, vindo de Porto Alegre, não conseguiu parar na pista molhada de Congonhas, atravessou a Avenida Washington Luís e colidiu com um prédio da empresa, resultando em 199 mortes. O acidente até hoje é considerado a maior tragédia aérea da América Latina.

Na fase mais recente, a partir de 2023, é descrita como um período de "renascimento", impulsionado pela concessão do aeroporto à Aena, atual concessionária do terminal e maior administradora de aeroportos do mundo em número de passageiros. A nova gestão espanhola, de acordo com Beting, tem promovido melhorias estruturais e operacionais, ao mesmo tempo em que preserva elementos históricos do terminal.
Patrimônio
Além da função logística, Congonhas também tem uma importância na cultura e identidade paulista. O aeroporto, projetado pelo arquiteto Hernani do Val Penteado, tem áreas e obras de arte tombadas pelo patrimônio público municipal devido ao seu valor histórico, com elementos arquitetônicos modernos e art déco no núcleo original do prédio.
Entre as áreas tombadas estão: a fachada do aeroporto; saguão central (escadarias de madeira, piso quadriculado preto e branco, painel de madeira com pintura do mapa do Brasil, painel de placas de granito com desenhos em baixo relevo); salão nobre do Pavilhão de Autoridades com mural "Os Trabalhadores" de Di Cavalcanti e um conjunto de espelhos decorados pelo arquiteto francês Jacques Monet.
Além do painel de pastilhas de vidro geométricas no hall da escada de acesso ao subsolo, escultura de granito no gramado do aeroporto, busto de bronze do comandante Sacadura Cabral e de Santos Dumont.
Curiosidades
O aeroporto de Congonhas também acumulou histórias inusitadas e afetivas: já sediou eventos esportivos, como partidas de tênis, e até cerimônias de casamento.
No dia 1º de maio de 1999, aconteceu o primeiro casamento civil no aeroporto de Congonhas, que foi do próprio Gianfranco Beting com sua esposa Sharon Karen. "A escolha de se casar no aeroporto veio da minha mulher. Ela é judia, eu não sou. Então ela sugeriu que a gente se casasse em um território neutro, no aeroporto de Congonhas", relembra.
Para Beting, a ideia não poderia ser mais perfeita, sendo frequentador longevo do aeroporto de Congonhas e apaixonado por aviação desde criança. "As primeiras três palavras que eu falei na vida foram "Varig, Varig, Varig" vindo aqui para Congonhas de carro com o meu pai", relata.
Mais do que um local de embarque e desembarque para diversos destinos, Congonhas se tornou parte da vida cotidiana não só de Gianfranco Beting, mas de milhões de paulistas. Apelidado de "praia paulista", o aeroporto foi o ponto de chegada e partida das estradas do ar que transformaram São Paulo, em menos de um século, de uma província afastada para a maior metrópole do hemisfério sul.
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