Euclides da Cunha, 160 anos: o legado de 'Os Sertões' no Interior Paulista

Municípios de São José do Rio Pardo, São Carlos e Euclides da Cunha Paulista mesclam suas histórias com a do escritor, considerado um dos maiores nomes do jornalismo e da literatura nacional
19/01/2026 14:58 | Cultura | Tom Oliveira

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Ponte e Cabana de Zinco (Foto: Luciana Rueda)<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-01-2026/fg359350.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Euclides da Cunha<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-01-2026/fg359322.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

Neste 20 de janeiro, o Brasil celebra os 160 anos de Euclides da Cunha, um dos maiores nomes do Jornalismo e da literatura nacional. No estado de São Paulo, ao menos três cidades do Interior não apenas celebram, mas preservam a obra e o legado intelectual do autor de Os Sertões: São José do Rio Pardo, São Carlos e Euclides da Cunha Paulista.

São José do Rio Pardo: o berço de Os Sertões

É em São José do Rio Pardo que a relação com Euclides da Cunha ganha maior densidade histórica. O escritor viveu na cidade entre 1898 e 1901, período decisivo de sua vida. Engenheiro de formação, foi designado para supervisionar a reconstrução de uma ponte metálica sobre o rio Pardo, fundamental para o escoamento do café.

Foto: Euclides da Cunha (no centro da imagem), durante obras de reconstrução da ponte metálica em São José do Rio Pardo (Foto: Acervo da Casa de Cultura Euclides da Cunha)

Durante sua ausência - quando atuava como correspondente de O Estado de S. Paulo na cobertura da Guerra de Canudos - a estrutura da ponte sofreu um acidente e desabou. Ao retornar, Euclides pediu para assumir pessoalmente a reconstrução, como reparação moral. Fixou residência na cidade e, paralelamente à obra de engenharia, passou a escrever, em um escritório improvisado de zinco e madeira às margens do rio, o livro que marcaria definitivamente a literatura brasileira.

Após a morte trágica do escritor, em 1909, a absolvição do responsável pelo crime provocou indignação na cidade. A reação veio pela via cultural: em 1912 nasceu o Movimento Euclidiano, considerado o mais antigo movimento cultural em atividade contínua no Brasil. Desde então, todo 15 de agosto, uma romaria cívico-cultural percorre os locais ligados à vida do autor no município.

Desse movimento surgiu, em 1938, a Semana Euclidiana, hoje um dos maiores eventos literários e intelectuais do país, realizada de forma ininterrupta há 88 anos, entre 9 e 15 de agosto. A programação reúne pesquisadores, estudantes, artistas e intelectuais e já contou com nomes como Guilherme de Almeida, Afonso Arinos, Ignácio de Loyola Brandão e Maurício de Sousa.

Foto: Ponte metálica em São José do Rio Pardo, um dos legados de Euclides da Cunha no interior paulista (Foto: Acervo da Casa de Cultura Euclides da Cunha)

Outro marco é a Casa de Cultura Euclides da Cunha, antiga residência do escritor, transformada em espaço cultural em 1946. O local preserva documentos originais e exposições permanentes, além de funcionar como centro de estudos, consolidando São José do Rio Pardo como referência nacional na preservação da memória literária brasileira.

"Com o passar do tempo, a cidade, que passou a ser reconhecida como o "Berço de Os Sertões", assumindo a responsabilidade histórica de preservar três pilares fundamentais: a Ponte Metálica, a Cabana de Zinco e a memória de Euclides da Cunha, por meio do euclidianismo - um traço cultural que diferencia São José do Rio Pardo de outras cidades brasileiras", explica Ana Paula Lacerda, curadora da Casa de Cultura Euclides da Cunha.

A Casa permanece aberta à visitação pública de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Aos sábados, domingos e feriados, as visitas ocorrem mediante agendamento prévio.

"Hoje, a Cabana integra o Recanto Euclidiano, um verdadeiro museu a céu aberto, que reúne a Ponte Metálica, a Cabana de Zinco, a Herma e o Mausoléu onde estão sepultados Euclides da Cunha e seu filho. O Recanto é uma praça pública, com visitação livre em qualquer horário", completa Ana Paula Lacerda.

Foto: Início do movimento euclidiano, ao lado da cabana de zinco onde o autor escreveu parte de Os Sertões (Foto: Acervo da Casa de Cultura Euclides da Cunha)

São Carlos: onde Os Sertões foi revisado

Além de São José do Rio Pardo, a cidade de São Carlos também está presente na história do livro. Euclides da Cunha viveu na cidade em 1901 e foi ali que o escritor teria revisado a obra Os Sertões, conforme indicam estudos baseados em sua correspondência pessoal, período em que estava fazendo a revisão final da obra.

A cidade mantém viva essa relação desde então. Em 1960, o professor e historiador Ary Pinto das Neves, então presidente da Câmara Municipal, buscou homenagear a memória do autor. Euclides havia atuado como engenheiro do Estado e foi designado para supervisionar obras do futuro Grupo Escolar Coronel Paulino Carlos.

Foto: Prédio da Câmara Municipal de São Carlos que leva o nome de Euclides da Cunha (Foto: Acervo da Fundação Pró-Memória de São Carlos)

"Na verdade, houve um erro histórico. É da mesma época a construção do prédio que abrigava fórum e cadeia e que depois veio a ser o da Câmara Municipal. E, nesse equívoco, atribuiu-se que ele acompanhava as obras da Câmara. Por isso, o prédio recebeu o nome de Euclides da Cunha e permanece assim até hoje", explica Leila Maria Massarão, historiadora e chefe da Divisão de Pesquisa e Produção da Fundação Pró-Memória de São Carlos.

Além disso, o município mantém a Biblioteca Municipal Euclides da Cunha e, por vários anos, promoveu sua própria Semana Euclidiana, reforçando o vínculo entre educação, literatura e memória histórica.

Foto: Edifício do Grupo Escolar Coronel Paulino Carlos: Euclides da Cunha participou da construção em São Carlos (Foto: Acervo da Fundação Pró-Memória de São Carlos)

Euclides da Cunha Paulista: o nome como identidade

No extremo oeste paulista, Euclides da Cunha Paulista carrega no próprio nome a homenagem ao escritor. A origem do município remonta à década de 1960. O povoado, inicialmente chamado Caciporé, passou a se chamar Porto Euclides da Cunha em 1965, por iniciativa de um de seus fundadores, admirador do autor de Os Sertões. O distrito foi criado em 1981, desmembrado de Teodoro Sampaio, e elevado a município em 1990.

Mesmo sem ter sido local de residência do escritor, a cidade transforma o nome de Euclides da Cunha em símbolo de identidade, pertencimento e memória cultural.

Foto: Euclides da Cunha Paulista tem cerca de 8 mil habitantes (Divulgação/Prefeitura)

Um legado que atravessa o mapa paulista

A presença de Euclides da Cunha em São Paulo vai além das cidades. A Rodovia Euclides da Cunha (SP-320), que inicia em Mirassol e termina na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul reforça essa memória no cotidiano de quem cruza o interior do estado, conectando territórios, histórias e a permanência de um dos maiores intelectuais da história brasileira.

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